sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Vida Cristã

 

Jesus pede para sermos perfeitos como o Pai celeste é perfeito[1]. Durante muito tempo, este pedido inspirou os mais diversos tipos de ascese. Porém, o que significa esta sentença? Qual a verdadeira consistência da perfeição divina?

Seguindo a vida de Cristo, percebemos sua doação total. Uma vida totalmente dedicada ao amor. Na última ceia, dá-nos o mandamento de nos amarmos como ele nos amou[2]. Esta entrega se consumou na cruz atingindo o coração do centurião que nele reconheceu o filho de Deus[3]. Somente um filho de Deus poderia morrer com tanto amor naquela situação.

Na cruz, ao expirar, Jesus derramou o Espirito Santo sobre todos nós. E o Espírito Santo, sendo Deus, é amor conforme as escrituras[4]. E se este espírito nos torna filhos de Deus[5] e por ele, de fato o somos[6].

Como filhos, devemos nos portar como o Filho, amor e entrega total[7]. Nisto consiste a mensagem cristã. Não é apenas um belo ideal, nem uma ilusão para os realistas. Não é um sonho impossível nem loucura.

Ser cristão é acolher o espírito de Deus, tornando-se capaz de amar plenamente. É o trabalho de uma vida de combate ao egoísmo e orgulho de se julgar o mais importante. É saber perdoar como Jesus perdoou. Quantos de nós seríamos capazes de perdoar alguém como Pedro que virou as costas[8] na hora de mais necessidade? Ser cristão é saber amar e ser dom de Deus diante da miséria e injustiça humana, mesmo sabendo que isto leva à cruz.

Aí sim! Amando o inimigo[9], perdoando o traidor, acolhendo o pobre, sem esperar nada em troca teremos conseguido nos aproximar da perfeição do Pai e realizar o pedido de Jesus, tornando-nos filhos de Deus.

Por Fábio Cristiano Rabelo


[1] cf Mt 5,48

[2] cf Jo 13,34

[3] cf Mc 15,39

[4] cf 1Jo 4,16

[5] cf Rm 8,15

[6] cf 1Jo 3,1

[7] cf 1Jo 3,16

[8] cf Mt 26,69-75; Mc 14, 66-72; Lc 22, 56-22; Jo 18, 17.25-27

[9] cf Mt 5,44

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Páscoa e o Sentido da Vida Cristã

A questão sobre o sentido da existência humana emerge da consideração sobre a questão da morte. Todas as certezas desvanecem como um castelo de areia na praia.

Aqueles a fundamentar sua existência na brevidade de seus dias, negando-se qualquer realidade transcendente sentem um profundo tremor diante da pergunta “E se existir algo depois disto?”. Já os esperançosos em um valor transcendente, indagam-se pela perda de sua vida. Só os loucos e os fanáticos não se fazem esta pergunta.

Os pretensos protagonistas da história percebem sua continuidade sem eles. Os ambiciosos sentem o vazio de seus sonhos de poder e glória. Por que construir pirâmides ou fazer grandes feitos para permanecer numa história que prossegue independente de seus sujeitos? Bebamos e comamos, pois amanhã morreremos e nada mais usufruiremos.

Porém, no âmago mais profundo da intimidade do ser humano, algo lhe diz existir algo mais. As coisas não podem acabar assim. A vida tem de ter um sentido. E este sentido pode ser encontrado de forma única na experiência e vivência da mensagem cristã.

A adesão a um Deus que convida o ser humano a participar de sua vida revela-se profundamente animador. Na rejeição brutal de Seu projeto, no sacrifício da cruz, ao expirar seu Filho, derrama sobre a humanidade seu Santo Espírito, fazendo um profundo convite de estar para sempre com ele. Promete na morte de seu Filho único e precioso que ninguém morrerá sozinho. Por mais solitária que pareça, a morte, a dor e o sofrimento jamais são solitários no horizonte da eternidade, pois o diáfano véu a separar criação e criador foi rompido pelo mistério do Deus que se faz homem.

Na morte do Cristo, todos morrem e todos adquirem vida nova. Todo moribundo encontra em seus braços estendidos o consolo de que não está sozinho. Cada morte encontra a ressurreição naquele filho do homem levantado da terra que atrai todos a si. Toda vida se renova na entrega de amor de Jesus de Nazaré, no convite à ressurreição numa vida nova.

Os cristãos devem viver esta feliz e esperançosa realidade antecipada no Batismo. No Batismo, morre-se com cristo e ressuscita-se com Ele. O papel do cristão é ser anúncio vivo desta páscoa a qual o mundo sofre rumo a um novo céu e uma nova terra. Deixar-se inundar pelo Santo Espírito e se tornar um homem novo a anunciar um mundo novo no qual prevalecem a justiça e a paz é o seu papel. Amar a humanidade e se entregar por ela com Cristo é seu destino. Viver a páscoa a cada instante de sua vida deve ser seu objetivo.

Uma feliz páscoa para todos!
São os votos de Fábio Cristiano Rabelo

quarta-feira, 16 de março de 2011

ECOLOGIA E TEOLOGIA: UMA DINÂMICA DE CUIDADO E COMPROMISSO COM A BIOSFERA

Por  Luiz Antônio de Araújo

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha

altura...”

Fernando Pessoa

Introdução

O atual momento tem nos apontado inúmeros e graves impactos ao meio ambiente. As mudanças climáticas, o superaquecimento do planeta, o buraco na camada de ozônio, o agravamento das catástrofes ambientais, a descaracterização de habitats naturais, entre outras variáveis, tem colocado como incerto e levantado o questionamento sobre o futuro da biosfera.

A investigação acerca da problemática ecológica nos alerta para uma mudança de paradigma. “os problemas ecológicos não dependem de uma simples solução técnica; pedem uma resposta ética, requerem uma mudança de paradigma na vida pessoal, na convivência social, na produção de bens de consumo e, principalmente, no relacionamento com a natureza”.[1]

Entendendo a necessidade de mudanças na relação do homem com a natureza como tarefa urgente a ser considerada pela humanidade, pretendemos refletir, em poucas linhas, a articulação entre a teologia e a atual realidade ecológica.

O diálogo entre bioética, ecologia e teologia nos aponta para o cuidado e a responsabilidade para com o nosso ambiente comum, o planeta Terra. Pensar teologicamente a problemática atual é também, buscar sentido na história da criação e da salvação para o compromisso de práxis cristã frente à realidade.[2]

Ecologia e o cuidado com a nossa comum-unidade, o planeta Terra

Nos últimos anos, o estudo acerca da ecologia[3] tem contribuído para debates e trocas de experiências entre várias áreas do saber. A reflexão ética contemporânea tem se ocupado do tema como tentativa de contribuir para os muitos problemas sócio-ambientais que afligem a terra e seus habitantes.

O homem se tornou o principal responsável pelo agravamento da crise ecológica da atualidade: “A raiz do alarme ecológico reside no tipo de relação que os humanos, nos últimos séculos, entretiveram com a Terra e seus recursos: uma relação de domínio, e não reconhecimento de sua alteridade e de falta do cuidado necessário e do respeito imprescindível que toda alteridade exige” [4]

A ecologia abrange em seu campo de concentração toda a relação dos seres vivos e do meio comum para prosperar a vida. A Ecologia é a ciência que “estuda todas as interações entre os seres vivos, incluindo os seres humanos, e seu ambiente.” [5] O universo é dinâmico, todo ser vivo se relaciona e se interage:” na natureza todos os seres vivos estão ligados uns aos outros por uma complexa rede de interações”.[6]

Para a reflexão ecológica os seres vivos não são vistos de forma isolada, mas em sua interação com o espaço comum de sobrevivência. Nesse sentido, a ecologia além de estudar a relação entre os seres, também abre o leque para uma reflexão de cuidado e respeito entre todo o sistema que compõem o planeta no sentido de proteger a biosfera.

Todo cuidado e respeito ou toda devastação do planeta de forma isolada refletirá e comprometerá a nível global a continuidade da vida no planeta: “o universo se tornou singular, porque cada singular é parte e parcela do universo”. Nessa compreensão, as necessidades das pessoas não podem estar em desacordo ou em luta constante com as necessidades do planeta. Há uma lógica do cuidado e da relação ecológica entre o oikos e o homem.[7]

O cuidado é essencial a vida. Martim Heidegger afirma a importância do cuidado ancorado na raiz da existência “Do ponto de vista existencial, o cuidado se acha apriori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que significa que ele se acha em toda atitude e situação de fato.” [8] O cuidado é indispensável na relação de conhecimento e interação com a natureza.

Assim, percebemos que o discurso ecológico não está restrito ao campo das ciências biológicas, tão pouco, ligado apenas com a idéia de preservação de algumas espécies naturais, como podem pensar alguns mais desatentos.[9] Lidar com os desafios ecológicos da atualidade requer um grande desafio ético a nível planetário como condição para um empreendimento coletivo e global, onde a contribuição de todos os seres humanos e imprescindível.

A Preservação da biosfera numa perspectiva teológica

Os escritos bíblicos nos mostram Deus como autor e doador da vida. Diante do caos Deus gera a vida.[10] A criação harmônica de Deus estabelece uma interação entre a natureza e o homem, por meio da gratuidade da criação, Deus concede ao homem a responsabilidade do cuidado e da perpetuação da vida.

O texto de Gn 1, 28-31 expressa a sintonia de Deus para com a criação. A geração de vida significa o amor incondicional e gratuito que Deus tem para com o homem, colocando-o no centro da criação. A manifestação de poder dada ao homem no v. 16 para que possa dominar sobre as demais criaturas o torna defensor e não algoz da criação.[11] O termo dominar não deve ser interpretado como autoridade inconsequente e destruidora sobre o planeta, e sim, dominar no sentido de governar; de se responsabilizar pelo cuidado e preservação da criação de Deus.[12]

A criação de Deus é interativa e não excludente: “E Deus viu que era bom”. “Deus criou por meio de suas palavras todas as realidades, formando uma grande solidariedade cósmica”.[13] A geração de vida deve gerar vida e não ser sinal de morte e destruição. Deus exerce o senhorio sobre a natureza por meio da criação e sustentação harmoniosa daquilo que foi criado.

O homem deve exercer a exemplo do criador o senhorio sobre a natureza baseado no “respeito à ação criativa divina, contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas as suas dimensões, cuidado com o meio ambiente e fazer dele uma fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com ela e, a partir dela, harmonia interior, comunhão com outras pessoas e caminho de conhecimento e estreitamento de relações com o próprio Criador”.[14]

A idéia irresponsável de dominação e destruição do planeta deve ser superada pela ética cristã do cuidado pela criação na liberdade e no amor. O domínio assassino e nocivo à biosfera é também uma prática suicida, em outras palavras, um atentado contra o criador.

O resgate de princípios como cuidar do planeta e de todos os que nele habitam nos leva a pensar, numa perspectiva teológica, em buscar um modelo ético que valorize a vida e veja na criação a obra amorosa de Deus. A relação do ser humano com o planeta nos remete as palavras dirigidas por Deus a Moisés: “Tire as sandálias porque este lugar é santo” [15].

O despojamento das sandálias coloca o homem diante do Criador totalmente livre e disponível. O orgulho, a ganância, a arrogância, o poder, a soberba humana deve se traduzir em sandálias tiradas para se render ao mistério do eterno, formando uma rede de comunicação entre Deus e a criatura.

Conclusão

Diante da atual crise ecológica, o ser humano vê ameaçado o futuro da humanidade. É urgente buscar uma saída para amenizar os males ecológicos que afligem a sociedade. Diante disso, a reflexão ecológica e teológica tem se colocado como ferramenta na busca de uma consciência planetária

O ser humano é um ser de relações, não vive isolado. Ele se relaciona com o universo e toda sua cadeia biológica. O homem também se vê diante do grande mistério que envolve todo o cosmos. Com isso, ele percebe a ação criadora de Deus que é fonte de vida. O espaço cósmico dado ao homem como meio ambiente por Deus coloca o homem diante da perspectiva da ética do cuidado e da responsabilidade que cada um tem para com o planeta.

Referências bibliográficas

BOFF, Leonardo. Ética & eco-espiritualidade. Campinas, Verus editora, 2003.

_____________. Saber cuidar. Petrópolis: Vozes, 1999.

_____________. Ethos mundial. Brasília: Letraviva, 2000.

_____________. Ética da vida. Brasília: Letraviva, 2000.

DAJOZ, Roger. Ecologia Geral. Petrópolis: Vozes, 1979.

JUNGES, José Roque. (Bio) Ética Ambiental. São Leopoldo: Unisinos, 2010.

________________. Ética ambiental. São Leopoldo: Unisinos, 2004.

CNBB. Texto base da Campanha da Fraternidade 2011. Brasília: CNBB, 2011.


[1] JUNGES, J. Roque, 2004, p.7.

[2] Nos últimos anos a Igreja Católica no Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem destacado a necessidade de reflexão e mobilização em torno de questões relacionadas a ecologia, à luz da teologia: Campanha da Fraternidade de 2004 – Tema: “Fraternidade e água"Lema: “Água, fonte da vida” ; Campanha da Fraternidade de 2007 – Tema: “Fraternidade e Amazônia” Lema: “Vida e missão neste chão” ; Campanha da Fraternidade de 2011 – Tema: “Fraternidade e a Vida no Planeta” Lema : “A Criação Geme em Dores de Parto”

[3] A palavra ecologia tem na sua etimologia a junção de duas palavras gregas: oikos, que significa casa e logos que tem o sentido de reflexão, discurso. O termo foi usado pela primeira vez em 1866 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834–1910), na sua obra Generalle Morphologie der Organismen (Cf. DAJOZ, Roger, 1979, PP. 13-14).

[4] BOFF, Leonardo, 2000, p. 17.

[5] BOFF, Leonardo, 1999. p. 17.

[6] DAJOZ, Roger, 1979, p. 273.

[7] Cuidar não é simplesmente um momento de atenção ou alerta, mas uma atitude frente ao outro de envolvimento e responsabilização. Cuidar do planeta subentende interesse e compromisso não só com as pessoas, mas com toda rede de relações que compõem o nosso habitat natural. (Cf. BOFF, Leonardo 1999, p. 33).

[8] HEIDEGGER, Martim apud BOFF, Leonardo, 1999, p. 34

[9] A reflexão nos chama atenção para uma consciência do cuidado e da conservação também para com o ambiente construído, os grandes centros urbanos se encaixam como um bom exemplo.

[10] Cf. Gn 1-2

[11] Cf. Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2011, p. 59-60.

[12] Percebemos na atualidade um grande contraponto entre o homem e o seu próprio habitat. As questões econômicas, consumistas e egoístas levam a uma relação de desgaste e destruição do meio ambiente, por parte do próprio homem. (Cf. o documentário: Uma verdade inconveniente do ex-vice-presidente norte americano Al Gore).

[13] Pontifício Conselho Justiça e Paz, 2009, n. 488.

[14] Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2011, p. 59.

[15] Ex 3,5

Uma Ecologia da Criação

Por Fábio Cristiano Rabelo
Neste breve estudo, temos como objetivo falar sobre a possibilidade de uma ecologia realmente cristã. Para isso, seguiremos as linhas de raciocínio de Clodovis Boff OSM e José Roque Junges SJ.
Segundo Boff, o problema ambiental deriva da perda da noção da dignidade humana, fruto do niilismo contemporâneo. Como pode o ser humano dar valor à vida da natureza, se não dá valor à sua própria vida? A negação da existência de um absoluto transcendente conduz a uma profunda crise moral. Nesta crise moral o ser humano não consegue mais ver seu lugar no mundo e sente-se incômodo em sua própria morada.
Este é o grande desafio da vida moderna. Como garantir a sobrevivência do ser humano se ele não tem mais valor para si próprio. Preso num círculo de hedonismo e falta de perspectiva, o sujeito contemporâneo não consegue entender a importância das relações humanas as reduzindo a um instrumento para o prazer. A natureza existe apenas para a fruição e o gozo.
Se o cristianismo quiser dar uma resposta a esta crise, ele deve mais uma vez manifestar a profundidade da teologia da criação nesta sociedade fundamentada no prazer do consumo. A recuperação do estatuto de criaturalidade tanto do ser humano quanto da natureza é um aspecto chave para a compreensão do mundo segundo a luz da criação pela trindade santa.
O Pai, em sua infinita bondade, cria todas as coisas no Filho e para o Filho. E tudo o que ele cria é bom, conforme o livro do Gênesis. O ápice e a coroa desta criação é o ser humano com sua capacidade de dar sentido às coisas pelo trabalho e de louvar o Criador por suas obras. Nesta dimensão da criação recuperamos o respeito à natureza, dado que ela é obra de Deus e nós, seres humanos, somos colocados como jardineiros desta obra maravilhosa. Cabe ao homem cuidar do mundo que pertence a Deus. Ao contrário do pensamento moderno que coloca o ente humano como o centro do universo, podendo dispor da natureza como bem entender, a teologia da criação revela a natureza como um dom de Deus ao ser humano que tem por finalidade conduzi-la à plenitude.
Contudo toda a criação foi feita no Filho e para o Filho. Toda a obra se consuma no Cristo o qual a conduz à plenitude de significado por meio de sua encarnação. O Cristo une as esferas da criação e do criador, acabando por levar a criação ao nível da divindade. Assim, o ser humano participa da vida divina.
É por meio da ação do Espírito santo que a criação é levada à sua plenitude. O Espírito do Pai e do Filho transforma a criação, recapitulando-a em Cristo conforme afirma Santo Ireneu de Lião.
Nesta teologia fica bem claro o papel do ser humano. Conforme Gn 2,15, o papel do ser humano em sua relação com Deus é cultivar e guardar o belo jardim que deve ser o mundo como espaço de relação com o criador. A natureza é o espaço por excelência d a relação com o Criador. Este espaço da relação deve ser sempre cultivado para que encontre o seu significado por meio do trabalho do homem. O trabalho humano consiste em resignificar a criação por seu esforço para que ela seja entregue ao Pai nas mãos de Cristo que é o sentido último de todas as coisas.
Por isso, rejeitando Boff e aderindo a Junges dizemos que a natureza não possui direitos. A natureza não é um ser de direitos, nem deveres. A natureza como criação é um dom do amor de Deus aos seres humanos. Sendo um presente, não devemos destruí-lo mas fruir dele e se lembrar sempre de seu significado como dom pelo qual somos responsáveis.
Uma vez estabelecida uma teologia da criação podemos colocá-la diante de algumas das visões ecológicas contemporâneas. a primeira seria a ecologia moderna que coloca a questão da preservação da natureza como algo ligado à sobrevivência. É útil e importante para sobrevivermos a preservação da natureza. Porém, não responde à pergunta sobre o sentido da existência humana. Para que e por que o ser humano desejaria sobreviver? Se tudo é vazio d e significado não há sentido em sobreviver. Gozemos e consumamos hoje, pois amanhã é inevitável que morramos.
Uma outra visão seria a presente na ecologia profunda a qual ressacraliza a natureza, colocando-a como absoluto na vida humana. somos apenas parte de um todo o qual continuará existindo depois que nos formos. Nesta visão, a natureza é sujeito d e direitos e nós devemos nos submeter a ela.
Em contraposição a estas duas visões extremas do mundo moderno e da ecologia profunda, uma ecologia cristã deve resguardar o cuidado com a natureza sem torná-la objeto de idolatria. Nesta ecologia cristã, fica o espaço da ciência como meio de cuidar deste espaço da relação entre criador e criatura no qual o homem se torna parceiro de Deus neste processo criador que se segue segundo a Palavra de Deus.
Portanto, o maior desafio à ecologia é encontrar seu sentido cristão, recuperando a criaturalidade negada pelo pecado das origens na qual poderemos encontrar o verdadeiro sentido da existência humana e da natureza, estabelecendo uma ciência do cuidar em contraponto a uma ciência do domínio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Saruman e o itinerário da razão moderna

Por Fábio Cristiano Rabelo

Aqui neste texto, pretendo fazer uma análise do personagem Saruman da obra o Senhor dos Anéis que certamente o autor não teria feito. Porém, Tolkien afirma que "quanto mais ´vida´ uma história tiver, mais facilmente ela será suscetível a interpretações alegóricas", autorizando-me a cumprir com esta arrojada tarefa de tentar fazer uma hermenêutica atualizada deste personagem tão interessante e misterioso.
Na leitura que faço, Saruman é uma interpretação mito poética do itinerário da razão humana. No início, ele visitava a floresta e sentia um grande prazer na natureza. Era conhecido por Saruman, o branco. Seu papel era estabelecer a união dos povos livres contra o mal de Mordor. Contudo, o personagem também conhecido por Curunir, acabou se corrompendo ao desejar o poder do Um Anel que prometia trazer domínio sobre toda a realidade do mundo.
A partir de sua corrupção, Saruman abandona o amor à natureza e passa a dar maior valor às máquinas. Todo seu trabalho passa a ser o de reconfigurar o mundo à sua vontade. Não importam mais os seres vivos, não importam mais as florestas e nem os seres humanos. Tudo existe para ser dominado e conhecido. Nisto, Saruman identifica-se com a quinta parte do Discurso do Método de Descartes no qual ele coloca a finalidade da ciência como o conhecimento e o domínio de todas as coisas. Ao invés de se buscar a beleza e a plenitude de realização do mundo, passa-se a ver a realidade como algo a ser dominado e escravizado para servir ao conforto de alguns poucos seres humanos.
Também deixou de ser Saruman, o Branco para se tornar Saruman, o de muitas cores. O Branco, ao invés de indicar valores inegociáveis passa a ser uma tábula rasa onde cada um pode pintar seus valores individuais, negando qualquer referência transcendente ou superior à qual os seres humanos devem responder. Este pecado é o mesmo pecado perpetrado por Adão ao tomar do fruto da ciência do bem e do mal na intenção de ser completamente autônomo, negando a existência de Deus, lei e fonte de sua vida. Nesta figura, também vemos o relativismo moderno que ao mesclar-se ao individualismo produz aquilo tão bem conhecido por nós.
Em contraposição a Saruman, surge Gandalf, o branco, Símbolo de uma ciência que se ocupa do cuidado de todas as coisas vivas. Sem mais prolongamentos, deixo algumas interrogações: É possível dar um coração à ciência moderna? Ou ela pode se utilizar apenas do coração humano tão suscetível a se corromper? Ou é necessário abandonar o modelo científico atual e colocar um outro modelo em lugar deste que preze o cuidado com todos os seres vivos e respeite a dignidade humana?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Elfos: O Primeiro Povo

 Por Fábio Cristiano Rabelo

Os elfos, para Tolkien, são seres feéricos, sendo mais pertencentes à natureza do que os humanos, seres sobrenaturais, conforme seu ensaio Sobre contos de fadas. Porém, nesta apresentação sobre os elfos não trataremos de sua natureza feérica e nos ocuparemos mais de estabelecer um paralelo entre os elfos e o povo hebreu pelo fato de ambos serem o primeiro povo.

Todas as histórias mais portentosas das Sagradas Escrituras ocorrem com o povo Hebreu, o primeiro povo a ser chamado por Deus por meio de uma Aliança, devendo s e tornar luz para as nações. A herança judaica de nossa cultura é algo que devia ser sempre lembrado em contraste com os movimentos anti-semitas que se caracterizam por uma revolta contra o judaísmo devido à má compreensão de sua mensagem.

Assim também ocorre com os elfos no Silmarillion. Nele são relatadas as histórias mais portentosas da terra-média. Além disso, todas as outras culturas benignas da terra média sofrem influência da cultura élfica em maior ou menor grau.

Agora estabeleceremos alguns paralelos entre a história do povo hebreu e a história dos elfos, afim de tentar estabelecer um paralelo teológico entre as duas histórias.
O povo hebreu foi libertado da escravidão do Egito pelas mãos de Deus por meio de Moisés. Os Valar resgatam os elfos da constante ameaça de Melkor como representantes da vontade de Eru Iluvatar. Como o Senhor Deus quebrou o poder "divino" de faraó, assim também os valar quebraram o poder "divino" de Melkor.

Como Moisés conduziu o povo à terra prometida, o vala Oromë conduziu os elfos até Valinor. Assim como a terra prometida de Israel era o espaço da Aliança, Valinor mostrava-se como o espaço da relação entre os elfos e Eru.

Como Adão, Feänor quis se colocar como senhor absoluto de seu destino afastando-se do espaço da relação. No caso de Adão, seu pecado foi querer ser autônomo, ou seja, ao invés de aceitar que a lei divina é vida, quis viver por suas próprias forças, estabelecendo sua própria lei. Já Feänor, quis tomar a execução da lei em suas próprias mãos, vingando-se daqueles que o lesaram. Enquanto adão foi expulso do jardim da relação, Feänor, em sua obsessão, cortou as relações com os poderes que representavam Eru Iluvatar e cometeu o fratricídio em Alqualönde para selar sua escolha. Como Caim, os Noldor foram amaldiçoados por seu fratricídio.

Toda a tragédia a se suceder após o retorno dos Noldor à Terra-Média, são semelhantes às situações sofridas pelo povo escolhido narradas na Bíblia. Claro que os fortes elementos míticos do Silmarillion o diferenciam radicalmente do relato bíblico, porém, o sofrimento dos elfos pode ser comparado com o sofrimento do povo judeu. No fim da história veterotestamentária, havia apenas um resto de Israel que seria totalmente disperso pelo mundo com o evento da destruição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C. da nossa era. Os Elfos, após seu arrependimento, também foram chamados de volta à Valinor, sobrando poucos na Terra-Média na Terceira Era do sol.

Contudo, os elfos deixaram profunda influência nos reinos humanos aos quais se aliaram. Podemos perceber, com clareza, os fortes traços élficos da cultura numenoriana, herdados mais tarde por Arnor e Gondor.

Assim também, os cristãos mantém em sua religiosidade e cultura muitos traços do antigo Israel. Somente para exemplificar, a importância das refeições para os judeus era altíssima e sagrada a qual viria a ser plenificada na Eucaristia Cristã.

Muitos dos nosso conceitos morais devem ao judaísmo suas raízes. Porém, não ao judaísmo moderno, também filho do judaísmo antigo. jamais nos esqueçamos que devemos a este pequeno povo representado pela grandeza élfica na obra tolkieniana muitos de nosso traços culturais.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Orcs: A Raça Maligna

Por Fábio Cristiano Rabelo
Neste artigo desenvolveremos uma análise filosófico-teológica da raça orc. Como base tomaremos  um artigo presente na revista O Universo Fantástico de JRR Tolkien número 1 e alguns textos presentes no Senhor dos Anéis e no Silmarillion.
No Silmarillion, o mal é incapaz de criar. Isto estabelece um paralelo com a teologia agostiniana presente nas confissões na qual afirma  a inexistência do mal como essência. Conforme Santo Agostinho, sendo o mal apenas ausência do Bem, ele  não pode dar origem a nada, resumindo seu poder em esvaziar a criação de seu sentido e orientação original. Na obra tolkieniana, o mal esvazia o sentido da existência élfica por meio de lentas artes da traição, da corrupção e da escravidão.
Podemos considerar os orcs uma alegoria a todos os seres humanos que sofrem humilhações e  degradação em nossa sociedade pós-moderna. São aqueles  a quem são negados o a dignidade e os direitos mais básicos. Muitas vezes, estas vítimas do desumano sistema social que vigora em nosso mundo se enchem de ódio pela realidade em que vivemos, perdendo  a noção da verdadeira vocação humana de participar da divindade amando.  Tornam-se criminosos, párias e plebe revolucionária com o anseio de apenas destruir tudo à sua volta.
Como os orcs, esta massa social se caracteriza pela ignorância, pela ambição, pelo orgulho, pelo ódio à natureza e pela incapacidade de amar o belo. No nosso mundo, é grande o orgulho e o desprezo pela sabedoria. As pessoas, muitas vezes, enclausuram-se em seu pequeno mundo pessoal, acreditando serem boas o suficiente, nunca necessitando de se converterem em seres melhores. esta é uma profunda característica dos orcs. Geralmente, vivem para pequenas maldades e prazeres donde tiram o sentido de sua existência. Também existem pessoas assim com ocorrência muito mais comum do que gostaríamos.
Outro traço importante dos orcs é a ambição que podemos perceber no livro o retorno do Rei quando eles se matam pelos objetos que Frodo Bolseiro carregava. São capazes de se matar por objetos que não valem tanto.  Quantas vezes, em nossa sociedade, nós mesmos não nos elevamos esmagando nossos semelhantes? Quantas vezes um cargo na empresa ou na Igreja nos leva  a lesar o nosso semelhante o qual compete conosco pelo mesmo ou o está ocupando? Quantas vezes, com a desculpa de nossa felicidade ser importante destruímos o nosso próximo? Quantas vezes vivemos em estruturas de ódio no qual somente ansiamos nos destruir mutuamente?
Quando amamos ou odiamos de verdade, nosso amor ou ódio se estende do seu alvo à toda criação. Isto também é característico dos orcs o quais destroem e devastam a natureza com prazer como podemos observar no filme O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel.  Esta também é uma característica da grande massa social a qual  desmata e destrói a natureza sem nenhuma piedade para desfrutar tudo o que lhes é oferecido.
Os orcs também amam as coisas sujas e feias. Não há  na obra tolkieniana lugar o qual permanecesse belo sob o domínio dos orcs. Quando eles tomam o poder, destroem toda a beleza do lugar. Cremos isto ser um sintoma também da modernidade. Os miseráveis, muitas vezes, acabam por não amar o belo e considerar o feio como algo digno de sua admiração. Por não terem acesso à dignidade que merecem acabam por odiar aquilo que devia ser objeto de sua admiração por não poderem ter a posse destes bens. Por outro lado, a cultura pós-moderna tem colocado em destaque muitas coisas indignas e vergonhosas as quais acabam sendo objeto de admiração das massas. Nossa sociedade parece ter perdido o gosto pelo belo.
Além de perder o amor ao belo, também parecem nossos hábitos alimentares terem se degradado ao nível da ingestão de venenos e coisas desagradáveis tal como ocorre aos orcs da obra de Tolkien. Um exemplo de alimento degradante se apresenta na obra O Senhor dos Anéis: As Duas Torres quando Merry e Pippin, capturados pelos orcs, são obrigados a ingerir uma de suas bebidas. Por experiência, podemos afirmar que os alimentos saudáveis não se misturam com a dieta das cidades grandes. Aqueles que gostam de uma alimentação saudável acabam por detestar a alimentação industrializada e vice versa.
Portanto, ao analisar os orcs e seus hábitos de vida, lembramo-nos da sentença pronunciada por Gothmog no filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei: "A era dos homens acabou. Agora começa a era dos orcs". Será que estamos condenados a nos tornarmos seres desorientados e perdidos? Existe alguma chance de recuperação desta massa destruída pela lenta tortura que vem sofrendo ao longo destes anos? Cremos que sim, pois o Espírito Santo é capaz de transformar tudo e restaurar a dignidade perdida daqueles seres que, apesar de serem biologicamente humanos, não o são espiritual e psiquicamente por terem sido destruídos por diversas forças no mundo.