Por Luiz Antônio de Araújo
“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.
Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha
altura...”
Fernando Pessoa
Introdução
O atual momento tem nos apontado inúmeros e graves impactos ao meio ambiente. As mudanças climáticas, o superaquecimento do planeta, o buraco na camada de ozônio, o agravamento das catástrofes ambientais, a descaracterização de habitats naturais, entre outras variáveis, tem colocado como incerto e levantado o questionamento sobre o futuro da biosfera.
A investigação acerca da problemática ecológica nos alerta para uma mudança de paradigma. “os problemas ecológicos não dependem de uma simples solução técnica; pedem uma resposta ética, requerem uma mudança de paradigma na vida pessoal, na convivência social, na produção de bens de consumo e, principalmente, no relacionamento com a natureza”.[1]
Entendendo a necessidade de mudanças na relação do homem com a natureza como tarefa urgente a ser considerada pela humanidade, pretendemos refletir, em poucas linhas, a articulação entre a teologia e a atual realidade ecológica.
O diálogo entre bioética, ecologia e teologia nos aponta para o cuidado e a responsabilidade para com o nosso ambiente comum, o planeta Terra. Pensar teologicamente a problemática atual é também, buscar sentido na história da criação e da salvação para o compromisso de práxis cristã frente à realidade.[2]
Ecologia e o cuidado com a nossa comum-unidade, o planeta Terra
Nos últimos anos, o estudo acerca da ecologia[3] tem contribuído para debates e trocas de experiências entre várias áreas do saber. A reflexão ética contemporânea tem se ocupado do tema como tentativa de contribuir para os muitos problemas sócio-ambientais que afligem a terra e seus habitantes.
O homem se tornou o principal responsável pelo agravamento da crise ecológica da atualidade: “A raiz do alarme ecológico reside no tipo de relação que os humanos, nos últimos séculos, entretiveram com a Terra e seus recursos: uma relação de domínio, e não reconhecimento de sua alteridade e de falta do cuidado necessário e do respeito imprescindível que toda alteridade exige” [4]
A ecologia abrange em seu campo de concentração toda a relação dos seres vivos e do meio comum para prosperar a vida. A Ecologia é a ciência que “estuda todas as interações entre os seres vivos, incluindo os seres humanos, e seu ambiente.” [5] O universo é dinâmico, todo ser vivo se relaciona e se interage:” na natureza todos os seres vivos estão ligados uns aos outros por uma complexa rede de interações”.[6]
Para a reflexão ecológica os seres vivos não são vistos de forma isolada, mas em sua interação com o espaço comum de sobrevivência. Nesse sentido, a ecologia além de estudar a relação entre os seres, também abre o leque para uma reflexão de cuidado e respeito entre todo o sistema que compõem o planeta no sentido de proteger a biosfera.
Todo cuidado e respeito ou toda devastação do planeta de forma isolada refletirá e comprometerá a nível global a continuidade da vida no planeta: “o universo se tornou singular, porque cada singular é parte e parcela do universo”. Nessa compreensão, as necessidades das pessoas não podem estar em desacordo ou em luta constante com as necessidades do planeta. Há uma lógica do cuidado e da relação ecológica entre o oikos e o homem.[7]
O cuidado é essencial a vida. Martim Heidegger afirma a importância do cuidado ancorado na raiz da existência “Do ponto de vista existencial, o cuidado se acha apriori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que significa que ele se acha em toda atitude e situação de fato.” [8] O cuidado é indispensável na relação de conhecimento e interação com a natureza.
Assim, percebemos que o discurso ecológico não está restrito ao campo das ciências biológicas, tão pouco, ligado apenas com a idéia de preservação de algumas espécies naturais, como podem pensar alguns mais desatentos.[9] Lidar com os desafios ecológicos da atualidade requer um grande desafio ético a nível planetário como condição para um empreendimento coletivo e global, onde a contribuição de todos os seres humanos e imprescindível.
A Preservação da biosfera numa perspectiva teológica
Os escritos bíblicos nos mostram Deus como autor e doador da vida. Diante do caos Deus gera a vida.[10] A criação harmônica de Deus estabelece uma interação entre a natureza e o homem, por meio da gratuidade da criação, Deus concede ao homem a responsabilidade do cuidado e da perpetuação da vida.
O texto de Gn 1, 28-31 expressa a sintonia de Deus para com a criação. A geração de vida significa o amor incondicional e gratuito que Deus tem para com o homem, colocando-o no centro da criação. A manifestação de poder dada ao homem no v. 16 para que possa dominar sobre as demais criaturas o torna defensor e não algoz da criação.[11] O termo dominar não deve ser interpretado como autoridade inconsequente e destruidora sobre o planeta, e sim, dominar no sentido de governar; de se responsabilizar pelo cuidado e preservação da criação de Deus.[12]
A criação de Deus é interativa e não excludente: “E Deus viu que era bom”. “Deus criou por meio de suas palavras todas as realidades, formando uma grande solidariedade cósmica”.[13] A geração de vida deve gerar vida e não ser sinal de morte e destruição. Deus exerce o senhorio sobre a natureza por meio da criação e sustentação harmoniosa daquilo que foi criado.
O homem deve exercer a exemplo do criador o senhorio sobre a natureza baseado no “respeito à ação criativa divina, contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas as suas dimensões, cuidado com o meio ambiente e fazer dele uma fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com ela e, a partir dela, harmonia interior, comunhão com outras pessoas e caminho de conhecimento e estreitamento de relações com o próprio Criador”.[14]
A idéia irresponsável de dominação e destruição do planeta deve ser superada pela ética cristã do cuidado pela criação na liberdade e no amor. O domínio assassino e nocivo à biosfera é também uma prática suicida, em outras palavras, um atentado contra o criador.
O resgate de princípios como cuidar do planeta e de todos os que nele habitam nos leva a pensar, numa perspectiva teológica, em buscar um modelo ético que valorize a vida e veja na criação a obra amorosa de Deus. A relação do ser humano com o planeta nos remete as palavras dirigidas por Deus a Moisés: “Tire as sandálias porque este lugar é santo” [15].
O despojamento das sandálias coloca o homem diante do Criador totalmente livre e disponível. O orgulho, a ganância, a arrogância, o poder, a soberba humana deve se traduzir em sandálias tiradas para se render ao mistério do eterno, formando uma rede de comunicação entre Deus e a criatura.
Conclusão
Diante da atual crise ecológica, o ser humano vê ameaçado o futuro da humanidade. É urgente buscar uma saída para amenizar os males ecológicos que afligem a sociedade. Diante disso, a reflexão ecológica e teológica tem se colocado como ferramenta na busca de uma consciência planetária
O ser humano é um ser de relações, não vive isolado. Ele se relaciona com o universo e toda sua cadeia biológica. O homem também se vê diante do grande mistério que envolve todo o cosmos. Com isso, ele percebe a ação criadora de Deus que é fonte de vida. O espaço cósmico dado ao homem como meio ambiente por Deus coloca o homem diante da perspectiva da ética do cuidado e da responsabilidade que cada um tem para com o planeta.
Referências bibliográficas
BOFF, Leonardo. Ética & eco-espiritualidade. Campinas, Verus editora, 2003.
_____________. Saber cuidar. Petrópolis: Vozes, 1999.
_____________. Ethos mundial. Brasília: Letraviva, 2000.
_____________. Ética da vida. Brasília: Letraviva, 2000.
DAJOZ, Roger. Ecologia Geral. Petrópolis: Vozes, 1979.
JUNGES, José Roque. (Bio) Ética Ambiental. São Leopoldo: Unisinos, 2010.
________________. Ética ambiental. São Leopoldo: Unisinos, 2004.
CNBB. Texto base da Campanha da Fraternidade 2011. Brasília: CNBB, 2011.
[1] JUNGES, J. Roque, 2004, p.7.
[2] Nos últimos anos a Igreja Católica no Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem destacado a necessidade de reflexão e mobilização em torno de questões relacionadas a ecologia, à luz da teologia: Campanha da Fraternidade de 2004 – Tema: “Fraternidade e água"Lema: “Água, fonte da vida” ; Campanha da Fraternidade de 2007 – Tema: “Fraternidade e Amazônia” Lema: “Vida e missão neste chão” ; Campanha da Fraternidade de 2011 – Tema: “Fraternidade e a Vida no Planeta” Lema : “A Criação Geme em Dores de Parto”
[3] A palavra ecologia tem na sua etimologia a junção de duas palavras gregas: oikos, que significa casa e logos que tem o sentido de reflexão, discurso. O termo foi usado pela primeira vez em 1866 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834–1910), na sua obra Generalle Morphologie der Organismen (Cf. DAJOZ, Roger, 1979, PP. 13-14).
[4] BOFF, Leonardo, 2000, p. 17.
[5] BOFF, Leonardo, 1999. p. 17.
[6] DAJOZ, Roger, 1979, p. 273.
[7] Cuidar não é simplesmente um momento de atenção ou alerta, mas uma atitude frente ao outro de envolvimento e responsabilização. Cuidar do planeta subentende interesse e compromisso não só com as pessoas, mas com toda rede de relações que compõem o nosso habitat natural. (Cf. BOFF, Leonardo 1999, p. 33).
[8] HEIDEGGER, Martim apud BOFF, Leonardo, 1999, p. 34
[9] A reflexão nos chama atenção para uma consciência do cuidado e da conservação também para com o ambiente construído, os grandes centros urbanos se encaixam como um bom exemplo.
[10] Cf. Gn 1-2
[11] Cf. Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2011, p. 59-60.
[12] Percebemos na atualidade um grande contraponto entre o homem e o seu próprio habitat. As questões econômicas, consumistas e egoístas levam a uma relação de desgaste e destruição do meio ambiente, por parte do próprio homem. (Cf. o documentário: Uma verdade inconveniente do ex-vice-presidente norte americano Al Gore).
[13] Pontifício Conselho Justiça e Paz, 2009, n. 488.
[14] Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2011, p. 59.
[15] Ex 3,5